Na rua de todos os segredos,
Mora o Passado, que deixou de sair de casa há muito.
Sentado na taberna, com o seu copo de vinho meio cheio, está o Esquecimento, que ainda se lembra de quando era novo.
A ver quem passa, por detrás das cortinas de renda minuciosamente bordadas à mão, está a Dona Saudade. O senhor doutor recomendou-lhe beber dois litros de água por dia, para compensar a imensidão que chora diariamente.
A lavar a valeta com o sangue das feridas abertas, pode-se ver a Dor.
Lá no cimo do monte, espreita a Memória, que se esqueceu do caminho de volta.
Se virarmos a esquina, está a menina Recordação a fazer recados à senhora Lembrança.
À esquerda, está o anão chamado Medo; o rapaz passa o dia a tremer, não se sabe porquê. Diz ele que é segredo.
E, pela rua abaixo, de sacola às costas, meio adormecido e com o rosto a escorrer lágrimas, vai o Coração.
Pois perdeu a menina dos seus olhos, a sua Felicidade, que se foi embora sem avisar ninguém.
Filha da senhora Esperança, dona da mercearia, e do senhor Contente.
Mas, após o desaparecimento misterioso do menino Feliz, filho mais novo do casal, mudaram-se de moradia — ninguém sabe direito o motivo.
Dizem as beatas pouco coscuvilheiras que foi a impiedosa Maldade;
É poderosa e tornou-se dona da cidade.
Com ela, vieram o seu marido Rancor, os filhos Ira e Ressentimento e, ainda, a pobre sobrinha Solidão, cuja mãe faleceu — a Infelicidade, irmã da Maldade.
Passam-se coisas esquisitas, mas toda a gente diz que é segredo.
Os únicos que podem saber a história da rua são o Passado e o Medo.
Mas o Passado diz que não vale a pena falar no que já passou, e o Medo só treme o dia inteiro.
A Saudade chora rios e mares toda a vez que se lembra.
A Recordação ainda é menina e a Lembrança é velha, diz que quer viver o fim da sua vida em paz.
O Esquecimento faz-se de esquecido e a Memória ainda não regressou a casa.
A Dor tem as feridas abertas, recusa-se a contar seja o que for.
Restam as beatas Maledicência e D. Maria Cusca, que dizem tanta coisa... sabe-se lá o que é verdade.
No fundo, toda a gente sabe de alguma coisa, mas ninguém conta nada.
O Presente arranjou emprego noutra localidade e o comboio do Futuro vem atrasado.
E, quando se pergunta à rua o que lhe aconteceu, ela diz que é segredo.